Portugal, quo vadis?
Pára de te lamentar. Vira-te para fora, vira-te para a frente. Respeita todos os que foram e não nos deixaram ficar mal; respeita todos os que nos procuram e têm uma vida bem mais dura que nós. Olhamos de solsaio, com a nossa memória curta que não se quer lembrar do que é “dar o salto para a França”, o que é entrar num barco para o Brasil, qual filho ingrato com vergonha dos Pais humildes. Estamos mimados. Muito mimados. Preocupados com os nossos “direitos adquiridos”, com a nossa “semana na neve”, com o nosso carro alemão, as nossas Timberland, os nossos absurdos e paternalistas 13º e 14º salários... e muito pouco preocupados em saber se produzimos, todos os dias, o suficiente para importar mais BMWs e mais LED de 36 polegadas, mais tralha inútil da China que só serve para poluir e dar cabo da balança de pagamentos.
Mimado. Estás mimado. Esqueceste o que a Europa e o seu projecto magnífico fez por ti. Esqueceste quanto mais justa, livre, próspera e até democrática a tua sociedade é em 2010. Esqueceste o que era ganhar e ter poupanças em escudos, o bombo da festa que perpetuava a lógica da competitividade dos baixos salários. Lembras-te dos alemães e o seu deutsche mark? Alguma vez deixaram de exportar por causa da moeda forte que lhes permitia férias na Toscânia, ou no Algarve? A sua competitividade não se baseava em salários baixos, mas em verdadeiro e difícil de substituir “valor acrescentado”. Não é preciso ser génio da economia para perceber isto. E tu sabes isto. No fundo sabes, porque és – get ready for this – inteligente. Trabalhador. Criativo. Empreendedor. Só que estás demasiado ocupado em ser mimado, chorão e a ler o Vasco Pulido Valente. Em dar poder e voz a inúteis que não têm talento, não trabalham no duro e estão-se nas tintas para o sucesso desta coisa chamada “Portugal”; pelo contrário, alimentam-se do Estado (essa coisa muito remota e inacessível que pertence a todos nós), das tricas dos media, das fraquezas da classe política, do nosso “parolismo” e da nossa incapacidade para dar um murro na mesa.
Esperança. E porque tenho esperança em ti? Porque quando tens que dar a volta, dás. E está na hora de olhar em frente com determinação, exigência, energia e optimismo. Está na hora de te virares para fora! Como já fizeste no passado em condições muito mais difíceis. Manda os miúdos para o Erasmus, dá “mundo” às novas gerações, pões os putos todos a falar inglês, transmite valores de exigência e competitividade mas também de tolerância e respeito pelos outros. Investe energia, tempo e palmadas nas costas aos que arriscam. Esta aversão ao risco tem que ser invertida. Tu inventaste o ditado “quem não arrica, não petisca”, mas na realidade penalizas os que se atrevem a sair daquela zona de conforto mediocre do emprego que “não é grande coisa mas é seguro”. Wake up! Sai do torpor herdado do paternalismo salazarista e do maternalismo pós-revolucionário.
O que podes fazer. Tens mesmo que incentivar as pessoas e empresas que exportam: os emigrantes do século XXI são bem formados, respeitados e continuma a ganhar “lá fora” para mais tarde investir em ti: seja a comprar uma casa, a investir num pequeno negócio ou a gozar a sua boa reforma no teu clima ameno; exportar é também o turismo: urbano, rural, cultural, gastronómico, balnear, radical, ecológico... exportar é também atrair cidadãos de outras origens: criar condições – para além das que já temos e não são poucas – para eles quererem vir trabalhar, criar negócios, investir em imobiliário, gozar a reforma, receber cuidados de saúde... Finalmente apoiar as empresas que exportam os chamados “bens transacionáveis”. Não com subsídios, essa lógica que artificializa a capacidade exportadora das empresas; mas com “palmadas nas costas” úteis, com incentivos fiscais justos, com uma cultura política inequivocamente focada para a exportação. Valorizar o reconhecimento de empresas que desenvolvem, produzem e exportam produtos e serviços.
Ser de Esquerda. Tenho que confessar que este teu filho é “rafeiro”. Nascido em Lisboa de Mãe inglesa e Pai português é – ao contrário do que muitos já concluiram – um homem de Esquerda. Inequivocamente de Esquerda. E não aceita que a livre iniciativa, a responsabilidade individual, o trabalho, a liberdade de acção, o empreendorismo, o gosto pelo risco e não gostar muito de sindicatos/lobbies sejam património exclusivo da Direita. Sempre entendi a Esquerda como o movimento da mudança, da irreverência, da luta por uma sociedade mais justa, em que os fortes têm o dever moral de ajudar os mais fracos. Em que as oportunidades devem ser para todos, em que a discriminação seja minimizada através de uma luta permanente contra o medo, a ignorância e a cobardia que a promove. Ser de Esquerda é acreditar que tu Portugal tratas todos que em ti vivem de forma igual e justa. Por isso ser de Esquerda é combater a ideia e a prática de “jobs for the boys – or girls for that matter”, tenham lá o cartão partidário que tiverem.
Vai, Portugal, vai. Sem medo. Não te desculpes com o “controlo dos media” e a “asfixia democrática”, fracos argumentos políticos de pessoas que não se querem lembrar do que é a repressão, a falta de liberdade de imprensa, de reunião e de manifestação. Shame on them. Demonstram pouco ou nenhum respeito por aqueles que com grande sacrifício pessoal combateram a ditadura fascista. Mas também não aceites esta tendencia que o teu partido da “esquerda democrática” tem para o compadrio, o nepotismo encapotado, em meter a rapaziada em empregos para os quais não têm mérito nem experiência. Comissários políticos, no gracias! Esse partido parece não entender que essa lógica vai contra os mais básicos princípios da sua razão de ser. Vai. Sem medo. És fantástico e és onde quero que os meus Filhos cresçam e vivam. Honra a tua História, e ajuda-nos a ser melhores Portugueses, porque assim seremos melhores Europeus, e melhores Cidadãos do Mundo.
Filipe Gill-Pedro. Lisboa, Fevereiro 2010.
© 2013 DESIGN, WORDS AND WEB DEVELOPMENT BY FILIPE GILL
PUBLICADO A 14FEV10
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .